Diálogo com a comunidade - Jornal Sinal Verde

um canal de comunicação com a comunidade

Volume 63 - abril, 2013

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Testeira Sinal Verde

 

Edição 63 - Abril de 2013

EDITORIAL

 

Neste mês comemora-se o Dia do Livro. Não é uma homenagem trivial. O que seria da humanidade se eles não estivessem ao nosso alcance? O livro é algo tão corriqueiro, que passa despercebida sua relevância para nossa formação e nosso desenvolvimento pessoal.

O livro é produto de comportamentos complexos. A produção do conhecimento a ser relatado por escrito é um dos primeiros passos. Escrever é outro... Quantos elos existem desde a formação do ser humano que gera conhecimento – em qualquer área – até a aquisição do livro num ponto de venda? A lista é imensa e sofisticada. Quantos elos poderiam ser enumerados desde o momento em que o leitor começa a ler as páginas impressas e as desenvolve ainda mais, as usa e as transmite, de modo a tornar-se, ele próprio, aprendiz e professor?

Todos nós do grupo ITCR somos parte ativa desse processo. É um extraordinário privilégio, enorme mérito e inalienável dever de cada um adquirir conhecimento, produzir novos conceitos e práticas e transmití-los. Gostaria que cada um refletisse a esse respeito: você é continuamente aluno, pesquisador e professor. O desenvolvimento da humanidade se deu pelo singular acúmulo de contribuições de pessoas – a maioria das quais como nós; outras melhores que nós – que fizeram o que nós fazemos diariamente: estudaram, aprenderam, criaram, transmitiram o que sabem a outros, os quais, por sua vez, entrarão na mesma espiral ascendente do conhecimento.

Desejo que você se veja exatamente assim! Um ser humano que pode ter significado relevante para si mesmo e para outros!

Helio

Um abraço, Hélio José Guilhardi
(CRP: 06/918)

 

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Tome Nota

 

livro

19/04 - “Contingências entrelaçadas na relação terapeuta-cliente”, aula do Dr. Roberto Alves Banaco, no Curso de Especialização

20/04 - “Alcoolismo”, aula do Prof. Hélio José Guilhardi/Discussão de caso clínico apresentado pela Psicóloga. Tatiana Lance Duarte – no Curso de Especialização

27/04 - “A Análise Funcional como estratégia de intervenção sobre comportamento-alvo”, aula da Dra. Juliana Godoi Fialho, no Curso de Intervenção Comportamental com Pessoas com Desenvolvimento Atípico.

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Aprendendo com Graça

”O doloroso processo da extinção...”

 

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”Formação incompleta de conceitos”

 

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Relembrando

“- Mas, se aprendi em casa o que é uma bromélia, como a reconheço nas rochas?

-Se o treino discriminativo foi repetido com diferentes tipos de bromélias, em diferentes circunstâncias, você, provavelmente, formou o 'conceito bromélia'. Isto é, passou a ser capaz de dizer 'bromélia' para muitos tipos diferentes de plantas, todas bromélias: generalizou dentro da classe de estímulos (bromélias grandes ou pequenas, floridas ou sem flores, ao vivo ou em fotos, etc.). Simultaneamente, discriminou entre classes de estímulos (não diz 'bromélia' diante de uma avenca, ou de uma samambaia, etc.). Tendo formado o 'conceito bromélia', portanto, você está habilitada a identificá-la (um vegetal bromélia tem função de SD para você) e a nomeá-la em qualquer ambiente.” (Guilhardi, H.J. e Queiroz, P.P., 2002)

A íntegra do texto disponível em www.itcrcampinas.com.br.

 

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Cotidiano

 

cotidiano

AGNALDO, TIMÓTEO, EMÍLIO SANTIAGO E DANIELA MERCURY

HÉLIO JOSÉ GUILHARDI

Meu vizinho tem um cachorro lindo: pitbull, macho, bravo! Cheio de personalidade! Sempre que passo em frente do portão, posso vê-lo, através de uma tela,correndo em círculos, latindo, ávido por se aproximar de mim. Já não tenho mais medo dele, pois me certifiquei de que o portão que nos separa é seguro. Ou melhor, tem sido seguro!

Costumo cumprimentá-lo: “Oi, Timóteo”, ou uso outras frases amistosas. Não foi sempre assim, pois no momento de saudá-lo me esquecia do nome dele. Considero um insulto não chamar um ser querido pelo nome. Que falta de “tato”!... Resolvi adotar um recurso mnemônico. Elaborei um míni encadeamento de respostas verbais: Agnaldo Timóteo. Aí bastava pensar: “Qual é o cantor?” Era o primeiro SD para a resposta encoberta: “Agnaldo”. Dizer “Agnaldo” para mim mesmo era Sr+ para a resposta de ter me lembrado do cantor e SD para a resposta seguinte: “Timóteo”. Lembrar-me, de forma encoberta, de “Timóteo” era Sr+ para a resposta de ter me lembrado de Agnaldo e SD para dizer: “Timóteo”. Simples, não? Desta forma, a resposta desejada podia, afinal, ser pronunciada em alta voz. Os reforços eram o sucesso de minha memória, ainda que capenga, e a euforia do Timóteo por ouvir seu nome em destaque (isto é, minha fantasia sobre sua euforia...).

O percurso para automatizar o nome do meu querido amigo não foi, no entanto, sem equívocos. Já o chamei de “Cantor”, de “Rayol” (o outro Aguinaldo), de “Roberto Carlos” e outros, sempre pedindo a ele as necessárias desculpas... Estou melhor. O que não tenho conseguido evitar, porém, é a generalização que ocorre – ainda bem que só de forma encoberta –, sempre que me aproximo do portão da casa do Timóteo. Na semana passada pensei no Emílio Santiago, nesta semana na Daniela Mercury. Acho que minha cabeça vai fundir na semana do Rock in Rio...

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Compreendendo a TCR

Solidão

Com exclusividade no Sinal Verde, você confere a íntegra da entrevista concedida pelo diretor do ITCR Campinas, Hélio José Guilhardi, à revista Metrópole, de Campinas. Em pauta, o tema solidão. Parte do conteúdo foi publicada na edição da Metrópole de 24 de março de 2013.

Como conceituar, em linhas gerais, a solidão?
Hélio J. Guilhardi: O sentimento de solidão é doloroso. Ao contrário do que se pensa, o sentimento de solidão não está relacionado com viver sozinho. Uma pessoa pode sofrer com sua solidão em meio a pessoas, inclusive junto daquelas que lhe são próximas: pais, irmãos, parceiro conjugal, filhos, amigos... Também não se espere que as pessoas não sintam solidão em momentos diversos de sua vida, tais como após uma perda afetiva significativa, durante a evolução de uma doença grave, depois de perdas materiais e profissionais expressivas (início de aposentadoria, por exemplo). Sentimentos de solidão desencadeados por eventos específicos são normais e, necessariamente, passageiros. O que pode ser considerado patológico é viver cronicamente com sentimento de solidão.
O sentimento crônico de solidão se desenvolve como resultado de pobreza afetiva, em geral com gênese num ambiente familiar carente de diálogo respeitoso e minguada expressão genuína de afeto. Nesse tipo de contexto, a pessoa não se sente respeitada por aquilo que ela é, não tem oportunidade de expressar ideias, crenças, valores, sentimentos, empobrece seu autoconhecimento, nunca está convencida de que é amada e fica privada de vivenciar seu amor pelo outro, com o outro.
Por outro lado, uma pessoa que vive sozinha pode se sentir bem e se bastar, sem experimentar sentimentos de solidão por razões imaturas. Pessoas pouco afetivas, narcisistas, egoístas, insensíveis à presença e aos sentimentos do outro podem viver em paz a sós. Não são, no entanto, realizadas (podem pensar que sim, pois lhes falta conhecer aquilo de que estão carentes) e seu desenvolvimento é truncado. Um ser humano maximiza seu crescimento pessoal, em especial o afetivo, no exercício da interação social. Uma pessoa emocionalmente madura é aquela que está bem a sós e também se sente plena na convivência com o outro.

Há estatísticas que revelam que há, percentualmente, mais pessoas casadas com sentimentos de solidão do que aquelas que vivem sós!
Hélio J. Guilhardi: É perigoso generalizar: uma pessoa que mora sozinha, mas que desenvolveu plenamente sentimentos de autoestima, de autoconfiança, boa dose de tolerância à frustração, que se sente segura e apresenta amplo repertório comportamental em múltiplas áreas da vida, pode dispensar o casamento, pois não depende do outro para se realizar, para se sentir protegida, para enfrentar os desafios do cotidiano. Como tal, não precisa se casar para se sentir (ilusoriamente) protegida; pode escolher casar-se ou não! Por outro lado, uma pessoa com baixa autoestima, baixa autoconfiança, baixa tolerância à frustração, insegura, com limitado repertório comportamental para lidar com os desafios do dia a dia, tem necessidade de se casar. Não está apta a escolher aquilo que lhe parece melhor, nem de se aproximar de pessoas que sejam melhores para ela. Casar-se, nestas condições, não é uma escolha; trata-se de uma necessidade, determinada por suas carências e limitações. E o casamento raramente supre os déficits, que devem ser superados de maneiras mais apropriadas. A pessoa se casa e, nesta condição, continua vulnerável, pois a relação do casal não é caracterizada pelo desenvolvimento de ambos através de influências recíprocas. O que melhor define tal relação é dependência. Uma pessoa dependente está sempre vulnerável e sentirá contínuos sentimentos de solidão, mesmo acompanhada!

Há ganhos em se viver sozinho? Quais limites da solidão devem ser respeitados?
Hélio J. Guilardi: Viver sozinho pode ser uma boa oportunidade para a pessoa melhor se conhecer, para testar seu potencial emocional e de atuação nos confrontos cotidianos, para exercitar o sentimento de liberdade, para expandir a capacidade de tomar decisões, encarar seus medos e incertezas, assumir riscos e não delegar para outrem a responsabilidade por suas ações. É bom e necessário conviver consigo mesmo, a sós. Por outro lado, é graças à interação com outras pessoas significativas do seu dia a dia que o senso crítico se mantém agudo, que a reavaliação contínua de seus pensamentos e atos se faz necessária, que surgem oportunidades para aprender e acelerar seu desenvolvimento pessoal, que são testadas as capacidades de se enternecer, de colaborar, de doar, de ceder, de pospor ou renunciar a privilégios, de se tornar humilde. Ninguém se desenvolve sozinho com a mesma magnitude e qualidade daquele que se relaciona com seu próximo. O desenvolvimento pessoal tem muito a ganhar com o necessário equilíbrio entre saber viver sozinho e saber viver com o outro.

Como uma pessoa pode se preparar para viver sozinha?
Hélio J. Guilardi: O preparo para viver sozinho é cotidiano. Deveríamos estar continuamente vivendo sozinhos e acompanhados. Você não precisa se isolar das demais pessoas, romper um vínculo afetivo, dissolver laços familiares etc. para então viver sozinho. Rodeado por pessoas, com sólido vínculo afetivo, no seio de uma família funcionalmente madura, você deve exercer também o dever (note que não falo em exercer o direito) de viver sozinho. São ambas facetas de um mesmo conceito – viver a sós e viver com pessoas – que compõem o pleno desenvolvimento individual. Se as circunstâncias da vida lhe forem adversas e não lhe sobrar opção de viver com pessoas, você, desta forma, tendo vivido uma experiência a sós-junto, estará preparado para prosseguir sozinho sem se desnortear, sem se desequilibrar com danos profundos. No entanto, não se deve almejar a solidão. Nenhuma circunstância deve ser considerada a priori como condenação à solidão. Há múltiplas maneiras para minimizar a solidão imposta. As pessoas devem cotidianamente exercitar variabilidade comportamental e criatividade para não se deterem diante de acidentes e imprevistos. As possibilidades de rearranjar os rumos da vida são incontáveis e oferecem possibilidades para evitar que alguém se condene a uma vida solitária. Optar pela vida solitária, então, nem pensar!...

Quais os perigos de se viver sozinho?
Hélio J. Guilardi:As pessoas solitárias são mais propensas à depressão e a não reconhecer mais as qualidades e a potencialidade que a vida oferece. Trata-se de uma forma de depressão que se diferencia da depressão clinicamente rotulada como doentia. Nesta, a pessoa quase que literalmente desiste de viver. Trata-se de uma manifestação de depressão tão drástica que a pessoa perde a autonomia para se cuidar e alguém tem que conduzi-la para um tratamento... A forma de depressão a que me refiro é menos intensa quanto aos sintomas e pode ser, por isso mesmo, negada. A pessoa não perde a autonomia para decidir o que é melhor para ela e, como tal, impede que outras pessoas a ajudem. No entanto, tal autonomia é apenas aparente. A pessoa acredita que escolhe se isolar, que escolhe não mais se divertir, que os componentes da vida não são significativos: que as cores se tornaram cinzentas, que os risos são hipócritas, que o amor é ilusão, que viver é durar e não desbravar e desfrutar...
Além das preocupantes e graves mudanças afetivas, como expostas acima, a pessoa solitária inicia um galopante processo de atrofia intelectual, de raciocínio, de expressão verbal, de conhecimento. Em casos mais graves, há alterações nos processos neurofisiológicos do organismo, que antecipam doenças e chamam pela morte.
As decadências afetivas, comportamentais, sociais e de bem estar físico avançarão irremediavelmente se não houver uma intervenção. O fato de os avanços dos danos serem graduais atrapalha a percepção da pessoa, que não tem consciência de seu declínio e, como tal, resiste a aceitar ajuda e repete: “Estou bem assim... Deixem-me em paz!”.
A melhor solução é preventiva: variabilidade comportamental, permanência ativa no convívio com o outro, busca ativa – por decisão individual e por sugestão do outro – de desenvolvimento pessoal em múltiplas áreas. Gostar de si, gostar de pessoas. Gostar da vida é um processo ativo e tanto melhor quanto mais conscientemente ele for cultivado.
É se comportando que melhor viveremos; jamais esperando o que a vida tem a nos dar. Ela disponibiliza quase tudo; não nos dá nada!

 

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Além de Terapeuta

 

VITOR SANTOS

Vitor dos Santos (CRP: 06/ 91521) é graduado em Psicologia e especialista em Psicologia Analítica pela PUC-PR. Também possui Especialização em Análise do Comportamento pelo ITCR-Campinas.

Vitor Pedro Calixto dos Santos

“Era uma vez...” penso que assim se pode começar minha história da relação entre a psicologia e a vida de padre. Tudo começou em Rio Claro quando, ao fazer a catequese, conheci o Seminário Claret e comecei a participar no grupo vocacional. Em 1975, com 15 anos de idade, entrei para o seminário. Segui os estudos: Ensino Médio, Noviciado, Filosofia e Teologia e recebi a Ordenação Sacerdotal em 1984 (em dezembro passado completei 28 anos como padre).
Logo no início de minha vida de padre fui para Roma, onde fiquei dois anos fazendo especialização em Liturgia no Pontifício Instituto Litúrgico Santo Anselmo. Ao voltar, em 1987, iniciei o trabalho como professor de liturgia e sacramentos no Studium Theologicum em Curitiba. Morei em Curitiba por 20 anos e, além de professor, exerci as funções de administrador e diretor da faculdade.
E a Psicologia? Bem, a psicologia, de alguma maneira sempre esteve presente, pois desde os tempos da filosofia estudei alguns de seus conteúdos e o interesse pelo ser humano sempre foi uma constante nos estudos humanísticos. Em Curitiba fiz um curso de Counseling, participei de grupos de estudos junguianos e cursei a pós-graduação em Psicologia Analítica na PUC-PR. Somente em 2000 é que iniciei, também na PUC-PR, a graduação em Psicologia, formando-me em 2006. Foi durante este período de estudos que conheci a análise do comportamento, ao participar dos encontros da ABPMC. Fui seduzido por ela e comecei em 2006 a especialização no ITCR, onde atuo desde 2008 quando fui transferido para Campinas.
Hoje, sou um padre analista do comportamento. Quem sabe, o primeiro. Para mim, no entanto, trata-se de uma opção positivamente reforçada de várias maneiras: pelo ITCR e todos os seus membros e, sobretudo, pelas possibilidades que se tem de ajudar as pessoas a viverem sua humanidade de maneira mais plena e assim, se for o caso, descobrirem a presença de Deus.

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A Palavra é Sua

Tania Parolari

Tania Parolari (CRP: 06/90250) é graduada em Psicologia pela UNIP, Pós-Graduada em Terapia Cognitiva Comportamental e Especialista em Transtornos Ansiosos pela USP/SP

Tânia Parolari

Quando e como você começou a trabalhar no ITCR?
Comecei a trabalhar no ITCR em 2008. Logo quando terminei minha especialização senti necessidade de trabalhar com outros colegas para poder compartilhar ideias, pensamentos e trocar experiências. Encontrei no Instituto o que procurava e fui muito bem acolhida.

Quantas horas por semana você trabalha no ITCR? Trabalha também em outros lugares? Quais?
Dedico 18 horas por semana ao ITCR. Também trabalho na parte da manhã em um escritório de advocacia especializado em direito de família e atuo como mediadora de conflitos familiares e conjugais junto aos advogados. Também sou voluntária de uma instituição religiosa no departamento de acolhimento.

Porque a Psicologia?
Desde adolescente sempre pensei na possibilidade de ser psicóloga, pois admirava as pessoas que se dedicam às questões do outro. Saber como as pessoas pensam e se comportam é estimulante.

Em que cidade você mora?
Moro em Campinas desde 1997.

Se você tivesse que ser outra pessoa, quem escolheria ser e por quê?
Eu mesma, enriquecida por tantas pessoas que admiro e que podem me agregar muito.

Que personalidade famosa você gostaria de atender? Conte o porquê.
Dilma Rousseff, para ajudá-la a manter a competência com menos estresse e mais serenidade.

Com quais pessoas você passa mais tempo na sua semana?
Clientes, marido e amigas.

Você tem animal de estimação?
Não tenho animal de estimação, prefiro admirá-los no habitat natural.

Nas horas vagas...
Encontro bons momentos em família, gastronomia, viagens, religião e com os amigos.

Livro ou filme favorito
Recentemente fui assistir ao filme "Quarteto" e me impressionei com o conteúdo, música e paisagens. "Os 7 hábitos das pessoas altamente eficazes" de Stephen Covey, está entre meus livros favoritos.

 

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ITCR Recomenda

Século 21, um paraíso da paz

A evolução de um mundo menos hostil

Em aguardada edição brasileira, psicólogo evolucionista sustenta que a humanidade se encontra num dos períodos de menor violência de toda a sua história. Autor sublinha o embate entre as tendências que nos levam à agressividade, como a vingança e o sadismo, e as que nos afastam dela, como a razão e a empatia.

O livro mais recente do pesquisador, "Os Anjos Bons da Nossa Natureza" [trad. Bernardo Joffily e Laura Teixeira Motta, Companhia das Letras,188 págs., R$ 74,50], acaba de chegar ao Brasil, e usa uma enorme massa interdisciplinar de dados para argumentar que, perto de qualquer outro momento da história humana -inclusive o "estado de natureza" supostamente idílico dos caçadores-coletores ancestrais-, o século 21 é um paraíso de paz. Até o terrorismo já passou de seu auge, que teria sido nos anos 1970.

 

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Giro

 

Giro 01

“O conceito de monogamia vem mudando com o tempo”

Para a psicóloga belga Esther Perel, um bom casamento precisa ter espaço para o indivíduo.

O conceito de fidelidade e monogamia está mudando. Essa é a teoria sustentada por Esther Perel, psicóloga belga radicada nos EUA. As traições atuais, segundo ela, têm pouca relação com frustrações no casamento – e, sim, com questões individuais. “Parte das motivações que levam uma pessoa a ter um caso fora do casamento não é proveniente de ausências em casa. Às vezes, sim. Mas, na maioria das vezes, um caso tem mais a ver com a descoberta de outras partes de nós mesmos”, afirmou a terapeuta, em conversa com a coluna por telefone, de Nova York.
Autora do livro Sexo no Cativeiro e uma das vozes mais respeitadas na área de terapia conjugal do mundo, Esther teve, recentemente, uma de suas conferências – parte do TEDxTalks – vista por mais de 1 milhão de espectadores. Em sua palestra, explica a contradição entre amor e desejo e os muitos desafios dos casais contemporâneos, entre eles a junção de duas necessidades paradoxais que buscam no outro: a segurança e a aventura. “Atualmente, o casamento, como um empreendimento romântico, tornou-se consagrado. É como pedir a uma pessoa que lhe dê o que toda uma comunidade costumava fornecer. É um nível irreal de expectativa”, explica.
A psicóloga afirma que é, sim, possível manter no casamento tanto o desejo quanto a segurança – desde que seja cultivada uma certa “distância” entre os parceiros.
Abaixo, os principais trechos da entrevista.

Na sua conferência, você faz a diferenciação entre amor e desejo. Como funciona isso nos casais contemporâneos?
Esther Perel: Acho que um dos desafios mais interessantes dos casais é o desejo de reunir duas necessidades fundamentais humanas – que, historicamente, não caminhavam juntas. Pelo menos, não nos relacionamentos conjugais. É como se afirmássemos que um “casamento apaixonado” é uma contradição em si. O casamento, antigamente, era um contrato de companhia para a vida familiar, para a reprodução, apoio financeiro, status social. Entretanto, atualmente, queremos que a pessoa com quem nos casamos seja nosso melhor amigo, confidente e também nosso amante apaixonado.

É muito para um parceiro.
Esther Perel: Não é fácil para o casal. Trouxemos o amor para o casamento, e esse acordo romântico está cada vez mais centrado na confiança, intimidade e afeição. Daí acrescentamos sexualidade a essa porção de amor. Sexualidade não como questão de reprodução, mas como força enraizada na ligação com o prazer. É a sexualidade que vem do desejo, não da obrigação. Temos hoje um casamento que precisa ter amor, sexualidade e o desejo de felicidade.

Mas amor e desejo são realmente contraditórios?
Esther Perel: Convivemos com a ideia de que, se amamos, desejamos. No entanto, as forças que alimentam o amor – que têm a ver com proteção, responsabilidade, mutualidade – não são necessariamente as mesmas que alimentam o desejo. O desejo nunca é alimentado pela responsabilidade ou pela necessidade de proteção. São duas experiências distintas. Relaciono a experiência do amor com a segurança. E o desejo com a aventura. Sempre digo que amar caminha com o verbo “ter”, e desejar, com o verbo “querer”. E assim, a questão sempre se torna: “Você pode querer o que já tem?”

É difícil de responder.
Esther Perel: Na verdade, você nunca possui o seu parceiro. É apenas um “empréstimo”, com a possibilidade de ser sempre renovado. Entretanto, é muito difícil tolerar essa ansiedade. Quando você ama, vive com o medo do amor. É uma forma existencial. A incerteza faz parte do amor, mas o fato é que nós não gostamos da ideia de que é necessário um mínimo de imprevisibilidade. Apenas o bastante para que exista um espaço para a novidade, a surpresa, o mistério.

Por isso a senhora defende uma mudança de percepção do que é considerado casamento?
Esther Perel: Na minha pesquisa, indagando às pessoas sobre quando elas se sentiam mais atraídas pelos parceiros, ninguém respondeu “quando olhamos nos olhos a cinco centímetros um do outro”. As pessoas respondem: “Eu me sinto atraído pelo meu parceiro quando estamos longe”. Isso significa que a imaginação precisa ter espaço para acontecer. Muitas situações descritas como de atração representam momentos em que o parceiro está sozinho, como, por exemplo, tocando algum instrumento, apaixonado por algo, seduzindo outros.

Acha que a atração está relacionada com admirar o outro?
Esther Perel: Acho que o desejo pode nascer dessa observação do outro. A sensação de confiança, suficiência, quando meu parceiro está em seu mundo. Quando ele não precisa de mim. Assim, não sou responsável, não estou protegendo e posso admirar. E posso desejá-lo.

A senhora afirma que, para o casamento sobreviver, é necessário existir uma distância.
Esther Perel: Sim. Precisa de espaço. Mas, para isso, é preciso estar confortável com o fato de ele não estar perto de mim, me protegendo. Preciso ficar tranquila que ele esteja falando com outras pessoas. Preciso ser capaz de permitir que ele cresça. E isso é difícil. Em um casal, sempre tem um que precisa de mais espaço e outro, de mais proteção.

Acredita que os filmes produzidos por Hollywood contribuem para que o amor/casamento seja muito idealizado?
Esther Perel: Hollywood apenas reflete o que as pessoas querem. Atualmente, o casamento, como empreendimento romântico, tornou-se consagrado. É como pedir a uma pessoa que lhe dê o que toda uma comunidade costumava fornecer. É um nível irreal de expectativas.

É daí que nasce o divórcio?
Esther Perel: O divórcio é a expressão do verdadeiro idealismo. As pessoas não pensam que escolheram o modelo errado; acreditam, sim, que erraram na pessoa. E o modelo representa a expectativa de que o parceiro forneça todas as necessidades de segurança e de empolgação.

E como se resolve essa contradição tão complicada?
Esther Perel: Eu sempre digo que não é um problema que você resolve: é um paradoxo que você gerencia.

E quanto à infidelidade? É um grande desafio, certo?
Esther Perel: Ah, sim. Historicamente condenada e universalmente praticada (risos).

Quais são as maiores queixas que a senhora ouve?
Esther Perel: É o que chamo de “infidelidade moderna”. Trata-se de uma visão geral, em um mundo igualitário, de que a infidelidade representa um problema no casamento. Ou seja, um bom casamento não tem infidelidade. Se você tem tudo em casa, não existe necessidade de procurar fora. Mas não acredito nisso.

Então, quais são as verdadeiras razões modernas para a infidelidade?
Esther Perel: Na maioria das vezes, um caso fora do casamento – não estou falando apenas de sexo – tem mais a ver com a descoberta de outras partes de nós mesmos. As pessoas não procuram outros parceiros, procuram um outro “eu”. Buscam a possibilidade de serem diferentes, de se conectarem com outras partes de si mesmas. Em um casamento de 20 anos, existe uma estabilidade que permite pouco uma renovação pessoal.

Quais são os maiores desafios? Esse pensamento pode ser muito narcisista, não?
Esther Perel: A fidelidade tem, hoje, um significado bem diferente do que tinha antigamente. Era uma imposição às mulheres. Representava patrimônio, e a infidelidade era um privilégio dos homens. As mulheres infiéis podiam ser apedrejadas. O romantismo mudou isso. A fidelidade, hoje, é um sinal de amor. É parte do culto sagrado do ideal romântico. Nunca precisamos tanto da fidelidade como hoje. Aí existe outro paradoxo: nessa sociedade individualista, dependemos muito de uma única pessoa, mas também estamos tentados a satisfazer nossos desejos pessoais.

Acredita em fidelidade?
Esther Perel: Claro. A monogamia é um exercício, uma escolha. E também está mudando de significado, o conceito vem mudando com o tempo. Era exclusividade sexual. Hoje, as pessoas questionam isso. Você está traindo quando pensa em outros? Começa na mente? A monogamia é um compromisso emocional? Essa é uma boa questão. As pessoas podem ser fiéis sexualmente e trair emocionalmente.

E em relação a casamentos e relacionamentos abertos?
Esther Perel: Através da história, o significado da sexualidade e as fronteiras sexuais mudam. Assim, para entender os relacionamentos abertos, é preciso entender que as pessoas, hoje, estão negociando limites.

Mas a traição não é uma forma de ter tudo?
Esther Perel: A infidelidade é um mecanismo interessante. Porque quem trai não desiste da segurança. Joga dos dois lados. Possui o entusiasmo, o perigo de perder tudo, mas não deixa o casamento realmente.

Falando de gêneros, na sua opinião, todos esses paradoxos são diferentes para homens e para mulheres?
Esther Perel: Em todos os níveis. Sociopolítico, socioeconômico e biológico. Vivemos com hormônios diferentes. Vivemos com órgãos distintos. Através da história, todas as sociedades tentam controlar a sexualidade. E os “regulamentos” para os homens são diferentes dos das mulheres. O que eu observo é que muitas mulheres são igualitárias até o nascimento do primeiro filho. Daí, elas percebem que sua história não é tão diferente da de suas mães e avós. O desafio dos homens – criados para serem autossuficientes – é experimentar a intimidade. E o desafio das mulheres – que são criadas para serem mais relacionadas – é experimentar sua independência.

Em uma conferência recente, a senhora leu uma carta que Obama escreveu para Michelle como exemplo de uma relação que sabe cultivar esse espaço. Acha que o casal Obama representa um modelo?
Esther Perel: Obama falou sobre isso, e o poeta Rilke também. Da necessidade de ver o outro com maturidade, diferença, distância. É um mistério que você pensa conhecer, mas você sabe que nunca vai conhecer.

É muito difícil manter isso em um casamento?
Esther Perel: Para algumas pessoas, sim. Por isso eu digo que não é um problema que você resolve, mas, sim, um paradoxo que você gerencia. E nem todo mundo quer viver com a tensão que é exigida pelo erotismo. Porque vem com o que é mais oculto, misterioso e transgressivo. A paixão anda junto com a quantidade de incerteza que você consegue tolerar.

Matéria de Marília Neustein, originalmente publicada no jornal O Estado de S. Paulo, em 08 de abril de 2013. Caderno 2, página D2.

Giro 2

Pinker é um otimista sem ser crente

HÉLIO SCHWARTSMAN, colunista da Folha de S. Paulo

"Ó tempos, ó costumes". Não foi Cícero quem inventou a mania de lamentar a corrupção e a decadência, mas ele foi particularmente feliz ao cunhar a expressão "o tempora, o mores", que traduz com primor essa propensão humana. Somos otimistas locais e pessimistas globais. A maioria das pessoas se julga um pouco melhor e mais esperta que a média da humanidade, mas não hesitamos nem um instante em catalogar o mundo como um lugar caótico e ameaçador que piora a cada dia que passa.
É claro que essa visão não resiste a uma análise empírica. Num dos livros mais importantes da década, Steven Pinker demole o mito recorrente de que o ser humano é uma espécie violenta e de que as guerras e massacres que produzimos em escala industrial nos levarão de forma inexorável à extinção.
Em "Os Anjos Bons...", o autor mostra que o mundo está se tornando um lugar cada vez mais seguro para viver, e a raça humana se mostra cada vez menos violenta. Pinker tem noção de que a tese encerra algo de polêmico e por isso dedica boa parte do livro a demonstrar com sofisticadas análises estatísticas como as taxas de violência estão caindo.
Considerando os números absolutos, o século 20, com duas guerras mundiais e um punhado de genocidas, se torna imbatível - 180 milhões de mortes em conflitos e massacres. Essa cifra corresponde a mais ou menos 3% do total de óbitos registrados ao longo do século. Mas, se nos fixarmos nas proporções, até os mais sanguinários tiranos perdem para nossos ancestrais que viviam em sociedades sem Estado.
Evidências arqueológicas recolhidas de dezenas de sítios que datam de 14000 a.C. a 1770 d.C. revelam que as taxas de mortalidade em conflitos podiam chegar a inacreditáveis 60%, como é o caso dos índios Creek ao longo do século 14. A mortalidade média verificada nesses sítios foi de 15%.
O grande mérito do livro, porém, não está na numeralha, mas nas análises de Pinker que tentam explicar o fenômeno. O autor identifica seis tendências históricas que contribuíram para reduzir a violência.
A mais antiga é a que ele chama de "processo pacificador", que teve início quando passamos a viver em cidades. Até por não toparmos mais a todo instante com bandos rivais, as taxas de violência caíram cinco vezes. Inspirado em Norbert Elias, Pinker chama o segundo passo de "processo civilizador". Ele teve lugar com o surgimento dos Estados centralizados europeus, que reservaram para si o monopólio do uso da violência. O resultado foi uma redução da violência da ordem de 10 a 50 vezes. É claro que, uma vez criadas, a repressão e as forças da ordem passaram a ser elas próprias a principal fonte de violência.
A terceira tendência, a "revolução humanitária", desponta com o Iluminismo e os movimentos que buscavam eliminar chagas velhas e novas da humanidade, como a escravidão, a tortura judicial, o despotismo, a intolerância religiosa.
O quarto elemento é a "longa paz". Aqui, Pinker retoma as ideias de Immanuel Kant, que apontava as virtudes pacificadoras da democracia, do comércio e de organismos multilaterais. Ora, foi justamente esse "blend" que o mundo passou a experimentar em doses cada vez maiores a partir da 2ª Guerra.
Em quinto lugar vem a "nova paz", instalada após a queda do Muro de Berlim. De lá para cá, verifica-se que diminuiu o número de genocídios, ataques terroristas e ondas de repressão que de algum modo eram alimentados pela Guerra Fria.
Por fim, temos o que Pinker chama de "revoluções dos direitos". A partir de 1948, com a Declaração Universal dos Direitos do Homem, começaram a pipocar movimentos com o objetivo de combater agressões a grupos específicos.
Situações como a do pastor Marco Feliciano e discussões em torno de cotas e casamento gay dão a dimensão de como esses temas ainda causam polêmica. O politicamente correto (PC) desponta aqui como um efeito colateral de um movimento civilizador. É claro que devemos combater os muitos exageros do PC, mas seria um erro classificá-lo entre as 10 pragas do Egito.

DEMÔNIOS E ANJOS

Pinker dedica alguns capítulos a destrinchar a psicologia da violência. Em resumo, contamos com cinco demônios internos que respondem pela maior parte das agressões: predação (violência com vistas a atingir um fim), dominância (desejo de obter prestígio), vingança (propensão a reparar injustiças), sadismo (o mal pelo mal, mas este é um fenômeno bem raro) e a ideologia (criar a sociedade perfeita ou concretizar os desejos de Deus).
Contrapõem-se a esses demônios quatro anjos, isto é, os mecanismos que nos permitem resistir à violência e nos colocam na rota da cooperação: empatia, autocontrole, senso moral e razão.
Pinker acaba se revelando um otimista, mas de modo algum um crente. Ele tem claro que os cinco demônios estão sempre à espreita e podem atacar a qualquer instante. Nossa espécie é violenta. Hobbes tinha razão. Mas, ao lado dos demônios, temos os anjos e, se medirmos as coisas na escala da história e não na das sensações e machetes dos jornais, a conclusão inescapável é a de que estamos fazendo um bom trabalho. O mundo de hoje é, sob quase todos os aspectos, melhor que o de nossos ancestrais.

Texto publicado originalmente no jornal Folha de S. Paulo, em 07 de abril de 2013, caderno Ilustríssima, página 7.

 

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